LEPIDOPTERA LINNAEUS, 1758
A palavra vem do grego lepis (escama) e pteron (asa), em referência às asas cobertas por escamas, característica marcante da ordem. São insetos holometábolos, que variam de 1 a 100 mm de comprimento, com envergadura alar de 2 a 300 mm. Possuem dois pares de asas membranosas, corpo e apêndices densamente cobertos por escamas, e aparelho bucal do tipo sugador (probóscide), raramente mastigador.
A ordem Lepidoptera inclui borboletas e mariposas. Há aproximadamente 500 mil espécies estimadas no mundo, das quais quase 26 mil são conhecidas no Brasil, o que representa metade das espécies da região Neotropical. Estima-se que o país abrigue entre 40 e 60 mil espécies, distribuídas em 78 das 124 famílias reconhecidas globalmente.
A cabeça é hipognata, com olhos compostos bem desenvolvidos, glabros ou cerdosos. Em alguns grupos há ocelos laterais. As antenas são longas e variam em forma: filiformes, clavadas ou pectinadas. As peças bucais são do tipo sugador, com a probóscide formada pelas gáleas das maxilas, adaptada para a ingestão de líquidos. Os palpos labiais têm três artículos e são importantes na identificação de grupos.
O tórax apresenta três segmentos. O protórax é o menor, com um par de escleritos anteriores (patágios). O mesotórax é o maior e abriga as tégulas que protegem a base das asas. O metatórax pode conter órgãos timpânicos em alguns grupos, como em Noctuoidea. As pernas têm cinco tarsômeros, com epífise na tíbia anterior (usada para limpeza) e garras tarsais simples ou bífidas. As asas, dois pares, têm venação variável. No sistema heteroneuro, a asa posterior tem menos veias que a anterior. O acoplamento das asas pode ser por jugo, frênulo (com retináculo) ou amplexiforme (sem estruturas de união, por pressão).
O abdômen tem dez segmentos, com espiráculos do primeiro ao oitavo. A genitália masculina inclui tegume, unco, valvas e falo (pênis). A feminina varia conforme o grupo: em Ditrysia (99% das espécies), há duas aberturas genitais separadas: uma para cópula (no esterno VIII) e outra para oviposição (próxima ao ânus).
Os ovos variam em forma, cor e textura. As larvas (lagartas) são eruciformes, geralmente fitófagas, com cabeça esclerotizada, três pares de pernas torácicas e até cinco pares de pernas abdominais (larvópodes) com ganchos. Possuem fiandeira para produção de seda. As pupas são do tipo adéctica e obtecta, podendo ser suspensas (presas pelo cremáster) ou sucintas (fixas por cinta de seda).
As larvas são majoritariamente herbívoras, consumindo folhas, caules, raízes, frutos e sementes. Os adultos alimentam-se de néctar, pólen, líquidos fermentados ou não se alimentam, vivendo das reservas acumuladas na fase larval. O ciclo de vida pode ser uni, bi ou multivoltino, dependendo das condições ambientais.
Os lepidópteros apresentam diversas estratégias de defesa: camuflagem (coloração críptica), coloração aposemática (advertência de toxicidade), mimetismo (batesiano e mülleriano) e comportamento de fuga. Muitas espécies sequestram compostos tóxicos das plantas hospedeiras. A comunicação química por feromônios é fundamental na reprodução, atraindo parceiros a longas distâncias.
A classificação atual reconhece cerca de 124 famílias, organizadas em superfamílias. Os principais clados são: Glossata (com probóscide), Heteroneura (venação assimétrica entre as asas), Ditrysia (com dois dutos genitais femininos), Apoditrysia (com apódemas modificados no abdômen) e Obtectomera (pupas sem mobilidade abdominal). Os Macroheterocera incluem as superfamílias mais diversas, como Noctuoidea, Geometroidea e Bombycoidea. As borboletas (Papilionoidea) formam um grupo monofilético que inclui as famílias Hedylidae, Hesperiidae, Lycaenidae, Nymphalidae, Papilionidae, Pieridae e Riodinidae.
Os lepidópteros têm grande importância ecológica como herbívoros e polinizadores, participando da ciclagem de nutrientes e da manutenção de ecossistemas. São bioindicadores de qualidade ambiental e integram cadeias alimentares como presas de aves, aranhas, morcegos e outros predadores.
Na agricultura, muitas espécies são pragas, causando danos a cultivos como soja, milho, algodão, frutíferas e grãos armazenados. Exemplos incluem a lagarta-do-cartucho (Spodoptera frugiperda), a broca-da-cana (Diatraea saccharalis) e a traça-dos-grãos (Sitotroga cerealella).
Há também importância médica: lagartas de Lonomia obliqua (Saturniidae) causam síndrome hemorrágica no sul do Brasil, e cerdas de mariposas Hylesia provocam dermatites urticantes.
Economicamente, destacam-se pela produção de seda (Bombyx mori) e pelo uso em programas de controle biológico. Borboletários e criações comerciais contribuem para a conservação e o turismo ecológico.
